Está tudo conectado / by Ana Catarina

Tenho escutado muito nesses últimos meses que “o ano está bom pra mim” ou que as coisas fluem com facilidade na minha vida. Tenho também passado por algumas questões e ensinamentos da vida que me fazem acreditar que o mundo está muito conectado, que existe mesmo um “Efeito Borboleta” por trás de tudo e que vivemos numa grande teia ou rede.

O ser humano tende a ver o resultado final das coisas e não o meio, o andamento, o caminho, o esforço que foram feitos pra chegar a tal resultado. Muitos dos acontecimentos negativos, não faço questão de expor, mas o melhor de tudo é que depois de um certo tempo, consigo enxergá-los como positivos. Durante o ano de 2014, se pudesse contabilizar, diria que fiquei pelo menos 3 meses sem fotografar, com problemas no meu equipamento, estresses para resolvê-los, algo que parecia amarrar meu pé e me fazer empacar durante o processo criativo. Foi cansativo, bastante por sinal. Por vezes e com ira, tive vontade de jogar tudo no chão e desistir. Foram muitas e muitas manhãs (se eu quiser ser otimista) ou madrugadas (se eu quiser ser realista) acordando muito cedo, com um peso que incluía caixa estanque, câmera, pé-de-pato, John (que na ida estava seco e na volta pesado e molhado), roupa pra trabalhar, kit banho, toalha. Um sentimento que dá agonia por dentro, ir com tudo isso de ônibus, no trajeto Laranjeiras – Orla. Banho com tempo contado no posto. Mais uma fichinha pra comprar 1 minuto extra de banho. Toalha na cabeça perambulando pelo posto e sem espelho pra me pentear. Mas um sentimento me movia: a vontade de fotografar. Frequentemente, me perguntam se eu trabalho com isso ou se é hobby. Nenhum dos dois. É uma terapia. É uma alternativa saudável que inventei pra sair da rotina de empregada pública. Ah, esqueci desse detalhe! Sim, cumpro 8 horas de trabalho numa empresa do governo de energia nuclear. Essa rotina toda que contei é antes do expediente e, claro, trago todo o equipamento pra passear no centro da cidade depois da session.

No meio do ano, de última hora, resolvi sair de férias e conhecer Bali. Um sonho prestes a se realizar. Com cinco dias de viagem, dei mole, me empolguei e fechei mal a caixa estanque. Resultado: dois dedos de água dentro da caixa e a câmera se afogou. Quis chorar, quis chutar o balde, mas do que adiantaria? Tinha 10 dias incríveis no paraíso ainda e eu tinha duas opções: estragar o restante da viagem ou aceitar e fazer a minha viagem agradável igualmente, mas sem surf photography. Trabalhei minha inteligência emocional e aí veio a recompensa do universo. Se minha câmera estivesse funcionando durante toda a trip, eu teria ficado enfurnada no mar o tempo inteiro e não teria sentido tanto cheiro de incenso em terra; não teria recebido N sorrisos balineses; não teria tido medo dos macacos. E não teria conhecido metade das pessoas incríveis com que me deparei. Cito especialmente duas: a Isa e Marina. E aí começa a conectividade do mundo. Creio muito que quando abrimos um canal, parece que atraímos bons fluídos.

Tudo começou com a Letícia, uma amiga que conheci durante o primeiro workshop do Sebastian e hoje trabalha somente viajando o mundo com a ASP (isso mesmo, a Association of Surfing Professionals) e apertando o botão de replay para os juízes do Tour. Quando ela soube que eu estaria na Indonésia, me mandou uma mensagem e fez o meio de campo com uma amigona que trabalhou com ela noCanal Off, a Marina. Começamos a nos falar e onde estávamos hospedadas? Na mesma pousada. Destino, seu brincalhão!  Marina havia levado à tira colo a Isa, uma amiga que tinha acabado de terminar o namoro no Rio e quis espairecer logo ali em Bali. Fomos à praia juntas e rolou uma identificação bizarra, como se nos conhecêssemos há muito tempo. Felizmente, pude fazer alguns programas com elas, porque minha fissura em fotografar tinha afundado em Canggu, com a morte da câmera. A trip chegou ao fim, nos encontramos no Rio e nossa forma de ver a vida e vontade de chutar o balde era gêmea.

Um dia desses, a Má me solta que está fazendo um curso da Perestroika, no próprio Off. Entrei no dia seguinte no site pra pesquisar e me deparei com o link do Surf and Content, uma surf trip com conteúdo maneiríssimo, que fala também sobre zona de conforto, storytelling, o que realmente importa, nossos medos, nossos receios em arriscar e, ah, não vou falar mais não, senão perde a graça! Nem hesitei! No dia seguinte, mexi meus pauzinhos e tudo resolvido: Itamambuca, aí vou eu! Experiência incrível, grupo incrível, filosofia de cada um incrível e bem compatível ao que venho me questionando ao longo do ano. No meio do grupo, duas meninas “gente finééérrima” que, claro, conheciam a Isa que conheci em Bali! Dãããr, nada passaria em branco! E o universo não deixaria de me lembrar que estava de olho! Tudo ligado, a gente lança uma ideia que está no pensamento e as respostas começando a chover em nós. Voltei de Itamambuca com o jargão da Perestroika no coração: "Vai lá e faz". Me identifiquei e adotei x3 à vida.

Esqueci também de contar que minha sorte no jogo está em alta! E logo que voltei de viagem, fui contemplada num consórcio que pago desde 1915 e dei um fim àquela saga de esperar ônibus com um milhão de tralhas. Sim, meu carro hoje é praticamente uma casa ambulante que, além dos apetrechos que citei acima, ainda contém cadeira de praia, toalha, tênis de futebol, roupa, guarda-chuva e um pé de pato reserva, caso eu perca o titular. Ah, e chinelo.Também na volta da Indonésia, conheci uma pessoa que fez meu coração dar uma aceleradinha. De leve, pra não rolar um convencimento, né? Sabe como é o ser humano quando sabe que tá fazendo sucesso...

Quanto à câmera, lá de Bali mesmo, fiquei sabendo que uma amiga estava em Nova York e aproveitei pra comprar um corpo e uma lente. Como eu iria pagar? Não fazia ideia. Ainda em terras indonesianas, consegui vender minhas lentes da Nikon pra um amigo. Chegando no Rio, o seguro cobriu meu “preju”. A conclusão que chego disso tudo? Tem duas: a melhor coisa que me aconteceu foi o PT inconsciente que dei na câmera. A segunda é de que acho que coloquei muita força na minha vontade de migrar da Nikon pra Canon. rs... Meu desejo foi uma ordem e ainda ganhei diversos brindes humanos pra acompanhar minha trajetória! Se eu tivesse desistido no primeiro contratempo que tive, há mais de um ano, nada disso teria acontecido. Persistência e confiança em si mesmo fazem parte. Algumas adversidades surgem como um questionamento do universo e pra ele ver o quanto queremos algo. No meu caso, é muito! Mas muito mesmo! Quanto mais a gente vai de encontro à essa zona de conforto que insiste em nos manter na caixa, mais satisfatório é nosso resultado, mais nosso horizonte se expande e mais possibilidades o mundo nos cria. Ou melhor, nós mesmos criamos.

A cada dia mais me deparo com pessoas e situações que reforçam minhas futuras escolhas e me fazem ter mais confiança em mim, mesmo que indiretamente e através de palavras despretensiosas. Reforço minhas convicções e crenças no mundo, na minha forma de enxergá-lo e colocar em prática o bem. Acho que quando a gente planta coisa boa, mesmo que aconteçam algumas tempestades durante o cultivo, a colheita não tem como não corresponder à semente.