Quebrando barreiras no Piscinão

  Em tempos surreais no Rio de Janeiro, nos preços, na (falta de) segurança, no descaso com os moradores, é difícil apenas se ater às paisagens óbvias. Em momentos de caos, olhar pra dentro é necessário e olhar além, essencial. Existe um divisor de águas na cidade, que implementa quase um ‘muro imaginário’ entre a Zona Sul dos postais e a Zona Norte e lá fui eu me aventurar no mar artificial do Piscinão de Ramos. A relação homem x água independe da procedência, da cor e da temperatura da mesma. Em tempos de ‘inferno’ no asfalto, solução é correr para a água, onde ‘cada mergulho é um flash’.

  Na direção contrária ao 'Dois Irmãos', encontrei algo que brilha tanto quanto qualquer maravilha natural - o sorriso genuíno de quem é feliz com o que parece ‘pouco’ aos olhos de quem, antes de olhar além, olha para o bolso. Aventurando-se pelos transportes públicos, seguindo uma família e seu ‘arsenal praiano’ – boias, isopores, brinquedos infláveis e canções de funk – fui na direção das águas paradas de Ramos, à beira da Avenida Brasil.

  Chegando lá, já quase ao meio dia, o cenário perfeito: barraquinhas democráticas, cobertas por lonas que lembram as de circo, em uma quase feira ao ar livre. Uma enxurrada de colchões infláveis e câmaras de pneus anunciavam um dos mais belos portfólios da vida. Crianças e seus sorrisos sinceros, em saltos quase ornamentais, despreocupados em molhar a pessoa ao lado, afinal, ali, todos estão unidos com um só propósito: diversão. Mulheres em seus biquínis fluorescentes, besuntadas com bronzeadores e clareadores de pelo, satisfeitas com o que exibem nas areias quentes que rodeiam o grande tanque. Os homens e suas inseparáveis cervejas, famílias inteiras despreocupadas com o rótulo ‘farofeiros’, que lhes caberia nas areias da Zona Sul.

  A água tem uma fórmula universal, porém, os 30 milhões de litros de água que cabem no Piscinão de Ramos contém algo mágico, que torna desconsiderável qualquer tom turvo. Afinal, o que transborda por lá é o que falta em muitas areias e em muitos corações: a felicidade genuína de quem só quer seu lugar, mesmo que apertado, ao sol. 


Breaking Barriers in Ramos

  During bad times in Rio de Janeiro, because of prices, (less) security, disregard with people,  it’s difficult to just stick to the obvious landscapes. In times of chaos, look inside it is necessary and look beyond. There is a watershed in the city, which implements almost a 'wall' between the South Zone of postal and North and there I was adventuring my self on a artificial sea called Piscinão. The relationship between man and water independent of origin, color and temperature of it. In times of 'hell' in the street the solution is to run into the water, where 'every dive is a flash’.

    In the opposite direction of the 'Two Brothers', I found something that shines bright as any natural wonder - the genuine smile of someone who is happy with what seems 'little' in the eyes of those who, before looking beyond, look to the pocket. Adventuring by public transport, following a family and your 'beachy arsenal' - floats, coolers, inflatable toys and Anitta songs - I went towards the Palm standing water on the edge of Avenida Brazil. 

    Once there, almost at noon, the perfect setting: democratic stalls, covered by tarpaulins that remember the circus, in an almost outdoor fair. A lot of inflatable mattresses and tires cameras announced one of the finest portfolios of life. Children and their sincere smiles, jumping, they don’t care if there’s someone next to them, they keep throwing water in everyone, after all, they are all reunited with one purpose: having fun. Women in their fluorescent bikinis, smeared with tanning creams, satisfied with exhibiting in the hot sands that surround the large tank. The men and their inseparable beers, whole families unconcerned with the label 'farofeiros' which would fit them on the sands of South Zone.

  Water has a universal formula , however, 30 million liters of water that fit on Palm Piscinão contains something magical that makes any inconsiderable cloudy tone. After all, what overflows there is what is lacking in many sands and in many hearts : the genuine happiness of those who just want their place , even though tight, the sun.