Whole 30 Fotográfico / by Ana Catarina

Logo depois do Carnaval, me dei conta de como eu estava cansada e entediada com minha fotografia e o quanto a demanda externa e comercial me distanciava do que eu realmente gostava de clicar. Quer dizer, do quanto também o que eu gostava de clicar estava chato pra mim. Muito do mesmo, falta de disposição e aquela vontade de sair correndo pra fotografar a qualquer preço. Precisava encontrar minha própria motivação e isso só depende de mim. Muitas vezes (quer dizer, na maioria das vezes) atribuímos a fatores externos o que deixamos de fazer. Motivos como: tá muito quente, tá chovendo, não tenho ninguém pra me acompanhar, não tenho nada pra fotografar podem ser recorrentes.

Me comprometi então, como um casamento comigo mesma, em fazer 1 foto por dia. Traduzindo, a terminar o dia tendo feito uma foto pensada, ao longo de 30 dias. Tenho tentado seguir esse lema: "Finished, not perfect", ou seja, feito é melhor que perfeito. A verdade é que nessa correria de dia-a-dia, mil equipamentos, esse vai e vem, a gente deixa de lado o que nos move, a essência do que somos e de que forma colocamos isso em nossas fotografias. E quando não estamos trabalhando, cadê nossa ferramenta de trabalho? Como fotógrafo anda sem câmera, gente?

Não me limitei a regras, algumas pessoas ficaram sabendo sobre o desafio e resolveram seguir, o que achei lindo demais! No entanto, não publiquei as 30 imagens feitas, com receio de que isso pudesse contagiar e de alguma forma influenciar o olhar alheio, mesmo que inconscientemente. A ideia era zerar mesmo o olhar viciado, perceber mais detalhes e riqueza a minha volta que ficaram escondidos atrás de um cotidiano de 35 anos. “Desautomatizar” o olhar que virou digital, que busca o celular por muitas vezes ao dia, que se distrai com pouco.

Pra organizar minhas ideias, pedi aquela cervejinha no bar e bombardeei um papel pardo com meus Post-its de ideias. Muitas. Mais do que o necessário. E nesse bolo de ideias, tinha foto aquática, de drone, de analógica e até mesmo de celular. Em torno de 40 possibilidades e sugestões de fotos que muitas vezes vejo na minha cabeça mas deixava pelo caminho. Claro que nem tudo é calculado dessa forma, mas verbalizar a intenção, organizar e escrever, te faz ter um norte e um comprometimento maior com aquilo que se propôs.

Foram 30 dias de aprendizado intensivo, de pontos positivos e negativos que pude concluir e de muito valor, tanto na fotografia quanto no meu processo de auto-conhecimento. Algumas imagens fluíram como esperado e até me surpreendi com o resultado. Mas em alguns dias, minha rotina estava chata e empaquei. Empaquei bonito, não fluía. E considerei muito importante me entender e me respeitar quando existe esse vão. Num trabalho, nos dão uma pauta a seguir e ao fim, temos que entregar. Muitas vezes vamos paralelamente ao que acreditamos e cumprimos a tarefa. Mas nesse caso, o compromisso era comigo. Então, deixei também acontecer esse vazio de ideias.  Sempre com alguma câmera a tira-colo, mesmo que celular!

Muitas vezes também eu via a foto, principalmente em se tratando de um retrato, mas a falta de interação com o assunto não me permitia aproximar. Aquele processo que rola na fotografia documental de estar invisível e, muitas vezes, essa relação com o indivíduo não teve tempo de ser lapidada. Em alguns casos, fiz a foto mesmo assim, mesmo sendo longe do que eu julgava ideal. No fim das contas, era o olhar que eu estava exercitando e, mesmo que a foto não tenha ficado do jeito que imaginei ou esperava, já me contentava em ter visualizado a fotografia, mesmo que não concretizado de forma tão fidedigna. Claro que dentro das ideias que tive, não consegui concluir todas e não vejo problema nisso! Só de colocar pra fora e tentar praticar, pra mim já vale! Procuro respeitar minhas limitações mas não deixá-las ditar o ritmo. Isso é importante!

A fotografia é de dentro pra fora e, se dentro não está acontecendo em determinado momento, tudo bem. Faz parte! Ela retrata nosso momento de vida, nossos sentimentos e é uma das ferramentas que temos de transmitir ao mundo nossa forma de vê-lo e sentir. Tem foto ruim, tem foto sem criatividade, tem foto sem sentido, mas pra mim, era aquilo que estava acontecendo naquele dia, naquele momento, desde um dia de burocracias no Centro da cidade até um dia de pura realização imersa no mar. Essa relação intensa não com a fotografia, mas com a minha fotografia, foi linda demais. Estar comprometida com ela foi estar comprometida comigo mesmo.